São Petersburgo, a Veneza do Báltico

São Petersburgo, a Veneza do Báltico

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São Petersburgo é quarta maior cidade europeia em questão de território, e a segunda maior da Rússia, ficando atrás, apenas, da capital Moscou.

Já tendo sido chamada de Leningrado e Petrogrado, Peter ou Petersburgo, como também é conhecida hoje, já foi capital russa alguns anos depois de sua fundação, realizada pelo czar (imperador) Pedro, o Grande. Mas logo após a Revolução Russa, em 1918, São Petersburgo perdeu seu posto de principal cidade russa para Moscou, que crescia em ritmo bastante acelerado.

A cidade é um verdadeiro êxtase histórico-cultural com seus inúmeros monumentos, igrejas de estilo ortodoxo russo inconfundível, estátuas, palácios, jardins, museus e muitos outros pontos turísticos que te levam a uma verdadeira viagem ao passado desse país lindo que é a Rússia.

Chegando em São Peter

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A minha chegada em São Petersburgo foi debaixo de uma chuvinha fina e fria, mas bem tranquila se comparada ao famoso frio russo. Tinha acabado de desembarcar na estação Finljandski vindo de Helsinque, a bordo do trem Allegro.

A estação é aparentemente grande quando se vê de fora, mas na verdade é simples e, assim que o trem para, você já consegue acessar o lado de fora com pouco passos.

A primeira imagem que tive ao sair da estação foi da estátua de Lênin. Cheguei, inclusive, a tirar algumas fotos pensando que fosse um monumento turístico muito famoso. De fato é, mas você passa a não dar muita importância ao descobrir que existem outras dezenas de estátuas do líder soviético espalhadas pela cidade.

Meu objetivo era chegar no hostel que tinha reservado no dia anterior através do Booking.com, mas não sabia exatamente como faria isso. Como o meu domínio do idioma russo se limitava às palavras básicas, o jeito era pegar um táxi mesmo, já que pegar um ônibus seria algo aventureiro demais para iniciar os dias na cidade.

Na porta da estação já haviam alguns motoristas de táxi aguardando por uma corrida, mas a grande maioria parecia não pertencer a nenhuma cooperativa ou ser clandestino, como ocorre muito no Brasil e em outros países. Porém muitos táxis em São Petersburgo são assim, então acostume-se com isso ao visitar a cidade.

Alguns taxistas já foram avançando se oferecendo para fazer minha corrida, sem ao menos saber para aonde eu estava indo. Normal, já que nessa situação eu era o gringo.

Os táxis ao redor da cidade tinham taxímetro, mas na saída da estação de trem nenhum deles tinham, então os preços eram “dados ao vento”. Depois de algumas negociações e gargalhadas de minha parte ao ouvir algumas propostas absurdas (eu sabia quanto daria a média da corrida ao calcular no site http://www.taxifarefinder.com/), embarquei em um que aceitou minha proposta de 10 dólares.

Passando por alguns pontos turísticos, incluindo sobre o rio Neva, que corta a cidade, a corrida durou cerca de 15 minutos até o Podushka Hostel.

Hostel em São Petersburgo

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Essa foi minha minha primeira experiência em território russo, então estava perdido por completo. E, por mais que eu já fosse um viajante, a Rússia era um até então uma cultura bem diferente dos locais que eu já havia passado. Então não sabia exatamente o que iria encontrar, principalmente com relação à hospitalidade do hostel.

Ao entrar, a primeira surpresa que tive foi de que o recepcionista não falava ou entendia outro idioma além do russo. A comunicação inicial foi difícil, mas as poucas palavras russas que eu sabia naquele momento me ajudaram bastante na comunicação. E sempre tinha meu guia-dicionário no bolso pra salvar também, é claro.

O hostel é pequeno, mas muito limpo e aconchegante. A sua localização é perfeita, ficando bem próximo dos grandes pontos turísticos da cidade. Como cheguei à noite e estava com fome, nem olhei muito. Apenas fiz o check in e saí para comer algo.

Caminhando pelas ruas vazias, encontrei um minimercado a cerca de 3 quadras do hostel. Comprei só o básico para fazer uma refeição rápida e já voltei, mas a fome era tão grande que resolvi comer um peixe num barzinho antes de retornar.

Quando cheguei no hostel fui guardar a comida que tinha comprado, para poder cozinhar no dia seguinte. Foi então que percebi que não havia fogão algum. Os únicos aparelhos que tinham por lá eram um microondas e uma pequena geladeira, além de alguns pratos e talheres. A sorte foi de que eu havia acabado de comer o peixe no bar, mas mesmo assim fiquei pensando como faria pra cozinhar os ovos e a massa que havia comprado. Mas no fim deu tudo certo, pois dia seguinte fiz um bom jantar usando apenas o microondas, rendendo um bom macarrão com omelete. 😉

O que fazer em São Petersburgo

A cidade fica às margens do rio Neva, bem na entrada do golfo da Finlândia, no Báltico. Então é comum vê-la cercada por inúmeros canais lembrando, inclusive, outras cidades famosas pelo mundo, como Amsterdam, por exemplo.

O lugar é em si um grande centro cultural a céu aberto. Como eu fiquei hospedado numa localização estratégica para conhecer os pontos turísticos, bem próximo da avenida Nevsky Prospekt, que é a principal de São Petersburgo e uma das mais famosas do mundo quando se fala em fatos históricos, minha locomoção foi fácil.

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A Nevsky Prospekt mesma já é um grande ponto turístico a ser explorado. Com cerca de 4 km, a avenida é um centro de contrastes como o da modernidade russa com os aspectos do passado e as diferenças sociais vistas na convivência entre ricos e pobres.

A avenida tem um lugar importantíssimo na história do país, pois foi o único território livre do domínio público nos governos czaristas e socialistas, se tornando cenário nas obras de Dostoiévski, Tolstói e Gorki, que gostavam de retratar essa parte liberal da cidade ao descrever o convívio entre prostitutas, nobreza, artesãos, pobres e outros membros da sociedade num mesmo local.

Monastério Alexander Nevsky

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Criado apenas 7 anos após a fundação de São Petersburgo, o Monastério foi criado por Pedro, o Grande, para abrigar os resto mortais de Alexander Nevsky, considerado santo pela igreja ortodoxa, além de um influente líder russo. O imperador, inclusive, foi o responsável por alçar o monastério ao mais alto grau hierárquico da igreja ortodoxa. A partir daí o monastério passou a ser chamado de Alexander Nevsky Lavra.

No interior do monastério existem duas igrejas barrocas, uma catedral no estilo neoclássico e um pequeno cemitério que abriga túmulos de famosos personagens da história da Rússia como o do compositor Tchaikovsky, do compositor Mikhail Glinka e do escritor romancista Dostoevsky, por exemplo. Em alguns dias existe uma espécie de feira onde membros da igreja vendem artesanatos e alimentos para arrecadar fundos.

Para chegar até o monastério siga até o extremo sul da avenida Nevsky Prospekt.

Teatro Mariinsky

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Na antiga capital soviética existem mais de 50 teatros, porém um dos que mais se destacam é o teatro Mariinsky. Considerado um ícone da ópera e do balé, o teatro , por onde já passaram obras-primas famosíssimas dos compositores Mussorgy, Rimsky-Korsakov e Tchaikovsky, além dos bailarinos Vaslav Nijinsky, Rudolf Nureyev, Anna Pavlova e Mikhail Baryshnikov.

Inaugurado no ano de 1860, o Mariinsky é hoje, junto com o Bolshoi (em Moscou), um dos grandes nomes na cultura  teatral russa, sendo referência para o mundo inteiro.

Museu Hermitage

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Bem às margens do rio Neva, ao extremo norte da avenida Nevsky Prospekt, o Hermitage é um dos maiores museus do mundo quando se fala em arte e cultura. Com uma coleção gigantesca, contendo obras de diversos estilos e épocas da história russa, oriental, norte africana e europeia, representadas por nomes como Picasso, da Vinci, Ticiano, Botticelli, Caravaggio e Rembrandt, o museu em si já uma belíssima obra prima.

Fundado pela imperatriz Catarina II, em 1764, o Hermitage é um enorme complexo composto por vários palácios. Dentre eles um destque para o Palácio de Inverno, antiga residência dos czares.

Esse é um dos maiores pontos turísticos não somente de São Petersburgo, mas também do mundo todo.

Fortaleza de São Pedro e São Paulo

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Fundada por Pedro, o Grande, em 1703, com o objetivo de proteger São Petersburgo de uma possível invasão sueca, no período da Grande Guerra do Norte, a fortaleza fica numa pequena ilha da cidade chamada Zaichy Ostrov.

Tendo o nome dedicado aos santos padroeiros da cidade, em 1720 a fortaleza Pedro e Paulo se tornou um complexo prisional político onde ficaram nomes famosos como Trotski, Dostoievsky, Gorki e o irmão de Lênin, Alexander Ulyanov.

Catedral de São Pedro e São Paulo fica ao centro da fortaleza, e no seu interior estão sepultados os restos mortais de imperadores russos e seus familiares, como o próprio Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Alexandre II da Rússia, Jorge Alexandrovich Romanov e Maria Feodorovna,

No ano de 1998 os restos mortais do último imperador da Rússia, Nicolau II, e sua família, assassinados durante a Revolução Russa pelos bolcheviques, foram trazidos da Sibéria para serem depositados também no interior da catedral.

Além da antiga prisão e da catedral, a fortaleza abriga também alguns prédios administrativos e um museu De lá ainda é possível ter um vista única de São Peter e se banhar numa pequena praia da ilha durante o verão.

Catedral Nossa Senhora de Cazã (ou Kazan)

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Um dos mais bonitos templos russos ortodoxos em São Peter, a catedral foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Kazam, um dos maiores símbolos religiosos da tradição local. Inclusive seu projeto foi feito como o objetivo de unir as características ortodoxas com a arquitetura da cidade. Tanto que a posição de sua fachada e colunas foram detalhadamente pensadas para atender algumas imposições da igreja.

Após a vitória sobre Napoleão a catedral tornou-se um memorial dedicado à celebração da vitória russa. Os restos mortais do general Mikhail Kutuzov, que comandou a vitória sobre as tropas napoleônicas, estão enterrados lá. Hoje ela detém o título de filial do Patriarcado de de Moscou na cidade.

Uma das construções que tem maior destaque na avenida Nevsky Prospekt, atraindo milhares de turistas o ano inteiro, a catedral ostenta em sua fachada um lindo jardim onde você pode relaxar um pouco enquanto assiste o corre-corre da cidade grande que é a antiga capital russa.

Catedral do Sangue Derramado

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Confesso que quando ouvi esse nome achei um tanto quanto estranho, mas seu significado fez todo o sentido: a igreja foi erguida, em 1881, no exato lugar onde o czar Alexandre II da Rússia foi assassinado, vítima de um atentado. Seu nome oficial é, no entanto, Igreja da Ressurreição de Cristo.

De um estilo russo medieval ortodoxo, com muito colorido e decorações em ouro, essa igreja já serviu de depósito de grãos e trigo durante a segunda guerra. E por ser considerada um símbolo desnecessário da igreja ortodoxa em um estado oficialmente ateu, quase foi demolida durante o período soviético.

Alguns depois da 2ª Guerra Mundial a restauração da igreja teve início, levando os trabalhadores a descobrirem uma bomba que estava presa na cúpula da igreja. A bomba tinha sido lançada no período de maior cerco à cidade, porém não explodiu, permanecendo escondida por lá durante anos.

Depois de quase 30 anos de obras a igreja foi reinaugurada, se tornando um dos pontos mais fotografados da Veneza do Báltico. No seu interior, decorado com mosaicos coloridos, você tem contato com uma cultura riquíssima através de sua arquitetura e do museu dedicado à história do atentado que matou Alexandre II. Do lado de fora há também uma feira onde você pode encontrar algumas lembranças locais.

Peterhof

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Conhecido como o Palácio de Versailles Russo, Peterhof foi construída por Pedro, o Grande, entre os anos de 1714 e 1725.

Logo ao avistar o palácio você já consegue sentir toda a grandiosidade que estava presente no estilo do czar Pedro: uma área enorme que conta com belíssimos jardins, estátuas, fontes e palácios, causando um efeito visual maravilhoso ao contrastar as cores verde branca e dourado. Dê uma atenção especial às mais de 120 fontes espalhadas por todo o local. A maior das cascatas, chamada de A grande Cascata, segue por um caminho até chegar ao mar Báltico. Com certeza é um cenário imperdível.

Primeiramente Pedro, o Grande, utilizou o palácio como residência de verão entre suas viagens à Europa e a outras cidades russas. Alguns anos depois, já residindo oficialmente, após ter ampliado bastante a área construída, Peterhof foi palco que grandes festas e bailes cujo alguns deles foram comandado, inclusive, por Catarina II.

Considerado Patrimônio Mundial da UNESCO, Peterhof fica, na verdade, em um município que pertence a um distrito de São Petersburgo, e que leva o mesmo nome do palácio. Às margens do Golfo da Finlândia, para chegar até lá basta percorrer uma distância de 30 quilômetros. O caminho é fácil e você pode fazê-lo alugando um automóvel, de barco, com transporte público ou contratando uma excursão local, que é o que mais recomendo.

Transporte

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Se locomover até São Petersburgo é fácil e tranquilo. A malha ferroviária é grande e tem ligação com diversas cidades russas e europeias. Eu, por exemplo, cheguei até lá vindo de trem por Helsinque. As rodovias também são inúmeras e bem conservadas. E o aeroporto internacional de Pulkovo suporta bem a demanda de voos vindos de diversas partes do país e do mundo.

Dentro da cidade, além dos trens, existem as inúmeras linhas de metrô, os trólebus (uma ônibus elétrico), os ônibus coletivos, os bondes, os táxis e o barcos, que aproveitam a grande quantidade de canais para transporte coletivo ou turismo. Qualquer que seja o transporte escolhido, é bem provável que você tenha uma certa dificuldade inicial para se locomover no início, por causa da comunicação.

Se for andar de táxi tenha atenção redobrada pois São Peter, assim como qualquer outra cidade grande, também possui muitos motoristas mal intencionados. Só para exemplificar, lembro de um caso que eu estava com um grupo de amigos em uma boate e, no meio da noite, duas amigas inglesas resolveram ir embora sozinhas. Cerca de uma hora depois eu estava com uma delas chorando ao telefone, dizendo que o taxista as tinha extorquido. Por sorte o alvo principal do motorista foi apenas o dinheiro.

Clima

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Se você deseja conhecer o verdadeiro frio russo, viaje até São Petersburgo no inverno, onde o rio Neva chega a congelar durante algumas semanas.

Considerada uma das cidades mais frias do mundo, com clima continental úmido, sofrendo influência das grandes tempestades provenientes do mar Báltico, a cidade possui invernos longos, com muito frio e chuva, e verões curtos, com bastante calor e umidade.

Estive na cidade durante os meses de verão, onde na maioria das vezes acabei encontrando bastante calor durante o dia e uma chuvinha bem fina à tarde. Algumas vezes chegava a fazer bastante frio, mas isso é só pra comprovar que clima em São Petersburgo é muito incerto durante todo o ano.

Dicas

São Petersburgo é uma cidade enorme com cerca de 5 milhões de habitantes e, a princípio, pode parecer um pouco caótica. Mas isso é só aparência, pois se locomover entre os pontos é de extrema facilidade.

Um fator importante a se considerar antes de planejar sua visita à cidade é o aprendizado básico do idioma russo. Já imaginou como é difícil para um estrangeiro se locomover em cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo? Então, a sensação que você pode ter ao visitar a Veneza do Báltico pode ser bem parecida. Porém o agravante é que o alfabeto cirílico (que compõe o idioma russo) é muito mais difícil de se entender, além do que você vai perceber, ao caminhar pelos locais, que pouquíssimas pessoas falam inglês numa das grandes cidades russas.

Inicialmente não sabia muitas palavras, e me guiava por um pequeno dicionário que levava no bolso, então sofri para conseguir comprar um bilhete de trem com destino a Moscou. Perdi um dia inteiro tentando a ajuda de alguém até que, enfim, encontrei um ponto de informações turísticas. A funcionária escreveu em um papel o horário, dia e destino do bilhete que eu gostaria de comprar. Bastou entregar o papel na bilheteria e pagar.

Para comer existem inúmeros restaurantes que atendem qualquer tipo de público. Á vezes eu comprava algo para cozinhar no microondas do hostel, mas sempre que podia experimentava um dos pratos tipicamente locais como as sopas e os peixes. E não deixe de experimentar o estrogonofe na terra onde ele foi criado.

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A moeda utilizada é o Rublo. Se você for fazer compras comuns como em shoppings, supermercados e bilhetes de transporte público, o pagamento é somente em moeda local. Já em alguns lugares específicos como pontos turísticos e no pagamento de algumas corridas de táxi, por exemplo, você pode pagar com dólares. Apesar dos preços praticados nas casas de câmbio locais serem bons, saiba sempre o valor do dia antes fazer a troca do dinheiro.

Com relação à criminalidade, ela também está presente na cidade, que já foi considerada a capital do crime na Rússia. Diversos filmes, seriados e livros foram produzidos baseados na nesse ponto fraco de São Peter. Os delitos variam de pequenos roubos e brigas de rua, a sequestros e assassinatos cometidos pela máfia russa. A xenofobia também é crime comum, porém hoje acontece com menos intensidade do que os anos anteriores.

O público que visita a cidade é muito variado, indo de casais em lua de mel a mochileiros. Independente do seu perfil de viajante, basta se planejar bem com os diversos roteiros disponíveis e você terá uma viagem inesquecível pela antiga capital da Rússia, assim como eu tive.

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Cientista social e editor apaixonado por viagens, idiomas e todo o tipo de cultura. Já esteve em mais de 50 países, mas confessa que não sabe exatamente o número de cidades que já visitou. Acredita que a vida é muito curta para passarmos tempo demais em um só lugar, por isso está sempre transitando por aí.