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O mais velho mochileiro do mundo

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Não havia nada de estranho com John Waite assim que o vi pela primeira vez. Nós estamos agora em um albergue da juventude, e na área comum está cheio de mochileiros conversando, bebendo, tocando instrumentos e fazendo o que mochileiros mais fazem em uma tarde ensolarada: transmitindo sua visão aberta sobre como podemos passar o tempo. John está ali como todo mundo, mas ele não é como os outros. Ele não tem o espírito impetuoso que outro mochileiro teria, nem tem as inseguranças veladas de alguns dos outros viajantes. John é seguro. John tem conteúdo. John tem 89 anos de idade.

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Quando a esposa de John morreu, em 1982, ele decidiu deixar seu lar em Melbourne, Austrália. Ele não arrumou sua casa ou quebrou os laços com seus filhos e netos. Simplesmente decidiu fazer do mundo a sua casa, e mais de 30 anos depois ele ainda está na estrada.

Ele viaja barato, através da vida de um mochileiro comum. Toda noite ele fica em albergues, rodeado por viajantes jovens que se separam por gerações, mas sempre se reúnem para introduzir uma simples conversa.

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“Eu fui em um albergue em Dubai uma vez”, lembra ele.

“A mulher na recepção disse que ‘este é um albergue para jovens e eles fazem muito barulho'”. “E eu disse ‘bem, se eu não conseguir dormir quando for para a cama, então você provavelmente vai me encontrar fazendo barulho junto com eles'”.

Ele conversa com os outros hóspedes no albergue trazendo um tom insolente, mas inocente para as conversas, por causa do modo como eles entram e saem da áreas comuns. Mas aqueles que já estão aqui por um tempo o conhecem bem e compartilham histórias suas histórias sobre o dia a dia e sobre o passado. John diz que gosta da companhia e da comunidade da vida mochileira.

“Eu estive no exército por tempo suficiente para me acostumar a dormir em dormitórios”, explica ele.

“Eu conheci pessoas maravilhosas. Elas são todas mais novas que eu, ok, mas todo mundo gosta de conversar”.

John prefere não falar sobre a guerra, embora ele a mencione muitas vezes usando como um ponto de referência para muitas de suas características e decisões. Ele simplesmente não entra em detalhes porque ainda é algo que ele lembra muito bem. Algo que está muito presente.

“Claro que eu tenho um pesadelo ou dois”, diz ele.

“Acho que eu estava gritando enquanto dormindo na noite passada, e as pessoas que estavam na sala devem ter pensado ‘o que será que está acontecendo?'”

Ele faz uma pausa.

“Mas é mais divertido do que um ronco.”

Nós dois rimos.

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Originário da Inglaterra, John mudou-se para a Austrália décadas atrás, quando uma libra poderia comprar um bilhete de viagem para o outro lado do mundo. Ele sempre teve um sentimento de emoção, e por isso consegue ver a aventura em seus olhos. Durante suas viagens ele coletou uma série de histórias que deixariam qualquer nômade completamente impressionado. Ele caminhou com os monges na neve do Paquistão, trabalhou com a ONU no Sudão e até mesmo morou na Índia. Ah, e ele tinha 75 anos quando ele fez isso.

Sempre que retorna para sua casa em Melbourne, para ver sua família, ele compartilha as histórias. Há, no entanto, sempre uma coisa que os jovens notam.

“Meus netos olham minhas fotos”, diz ele, “e dizem que querem viajar comigo porque eu tenho melhores meninas do que eles!”

Mais risos.

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John viaja com pouco peso. Sua mochila normalmente pesa apenas 5 kg, onde ele carrega só duas mudas de roupa. Quando ele está em lugares com climas mais frios, geralmente encontra alguém que lhe empresta um casaco ou uma calça. Ele não liga para confortos. Havia me contado sobre quando se hospedou em um albergue na China e teve que dormir em um quarto com mais de 40 outras pessoas.

Ao longo dos 30 anos de viagens acabou escolhendo alguns países favoritos. Ele ama os Estados Unidos e tem um monte de bons amigos em toda a América. Ele também gosta da Dinamarca, Noruega e um pouco “ironicamente”, a Alemanha.

John é o único que usa a palavra “ironicamente” quando menciona Alemanha. Muitas pessoas acham que ele não gosta do país por causa de seu passado. Ele diz que é, na verdade, o contrário.

“O Exército nunca me ensinou a odiar nada”, diz ele. “Ele me ensinou a matar, mas não a odiar. Tenho certeza de que com os alemães era o mesmo, e eu tenho amigos maravilhosos lá”.

Suas viagens, muitas vezes, deixaram John em algumas situações de perigo. Às vezes esse lugares eram algo que você não poderia imaginar, como em regiões envolvidas em grande conflito, por exemplo. John não costuma ir à procura de problemas. Ele apenas quer ver o mundo, e é por isso que está nesta jornada. Ele teve 89 bons e vividos anos neste planeta, e passou os últimos 30 o explorando. E ele diz que não está preparado para compromissos nesta fase da sua vida.

“Eu não tenho o desejo de morrer, mas se você está indo onde há tropas e disparos acontecendo, você estará buscando algo não é muito agradável para sua vida”, diz ele.

“Mas eu quero viver. Eu amo isso.”

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Cientista social e editor apaixonado por viagens, idiomas e todo o tipo de cultura. Já esteve em mais de 50 países, mas confessa que não sabe exatamente o número de cidades que já visitou. Acredita que a vida é muito curta para passarmos tempo demais em um só lugar, por isso está sempre transitando por aí.

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