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Quando vejo as fotos de James no Facebook me sinto como se estivesse em um portal, diante de lugares em que estive porém com diferentes visões da que ele passa – The Golden Gate Bridge, um pequeno apartamento em Marrakech, uma esquina em Boston, uma pista de corrida não identificável no meio de montes de areia e um cartão postal de  Paris pronto para ser enviado.

James, aos 26 anos de idade, pode reivindicar muitos títulos de uma só vez: ele é um ex-professor de escola, um editor de livros, um músico, um poeta. Suas atualizações de status sempre mostram algo de Jack Kerouac, Stephen Colbert, Johnny Cash e The New Yorker. James é, acima de tudo,  um viajante. James é um dos muitos nômades digitais que existem. E ele está estudando o mundo. Ele está sempre, invariavelmente, em algum lugar diferente.

“Desde julho do ano passado eu vivi em Rabat, Marrocos; Miami, Florida; e Oakland, Califórnia. Deixei Oakland no final do mês para ir à Miami. Em seguida, seis meses no Brasil”, conta James casualmente. “Eu sinceramente nunca considerei o fato de não poder viajar. É dessa forma que fui criado.”

A necessidade de viagens parece endêmica para certos tipos de personalidade. Às vezes pensamos em viajantes perpétuos – transientes, ciganos, os visitantes – como meramente aqueles que estão em busca de algo que está faltando em suas vidas. Embora isso possa ser verdade para alguns, um novo estudo da revista Intelligence destaca que pode haver uma correlação clara entre o intelecto e a compulsão de se mover. O estudo teve como primeiro objetivo identificar quais as áreas geográficas atraem as populações mais inteligentes, com o pressuposto básico de que as pessoas mais inteligentes, com maior acesso a recursos socioeconômicos, iriam parar nas grandes cidades.

Simplificando: pessoas inteligentes movimentam-se o tempo todo. Não necessariamente quem não se movimenta não seja inteligente. Não é isso. Mas sim uma percepção diferenciada da vida e de suas limitações.

O psicólogo Markus Jokela, da Universidade de Helsinki, descobriu que a capacidade cognitiva, além da renda, desempenhou um papel importante nas escolhas de migração dos americanos. O estudo de longo prazo, realizado com uma amostra nacionalmente representativa ao longo dos anos, de 1979 a 1996, descobriu que aqueles que mais se mudaram de lugares rurais para as cidades centrais pontuaram mais em testes de inteligência. Além disso, aqueles que viviam em uma cidade central no início do estudo e se mudaram para os subúrbios pontuaram mais no teste de inteligência do que aqueles que começaram na cidade e ficaram onde estavam. Havia muitas variáveis ​​envolvidas no estudo, mas o ponto concreto foi este: pessoas com altos percentuais cognitivas não tendem apenas a se deslocar para cidades maiores, mas tendem a mover-se mais.

Então talvez seja preciso um QI mais elevado para ganhar a temeridade para embalar todos os seus pertences em seu humilde apartamento em Groton, Massachusetts (população de 10.800) e seguir para um apartamento em Los Angeles (população de 3,7 milhões). O mundo é tão vasto e nossa vida muito curta.

“Há definitivamente um charme ao plantar raízes, mas temo pela minha própria comodidade. Você não pode ser preguiçoso quando se tem um tempo escasso. Eu conheci muitas pessoas maravilhosas e eu vou sentir falta dos meus amigos, mas isso tudo faz parte de nossa existência – nós morremos no final desta jornada e não há muito o que ver e aprender depois disso”, me disse James. Algumas palavras dele me fizeram lembrar de F. Scott Fitzgerald, um expatriado por si próprio: “Nós fazemos nosso lar, onde quer que ele seja… E não existe uma pessoa no mundo que seja necessária ao extremo para nossa existência.”

A própria ideia de Wanderlust – a compulsão voraz de viajar e ir e observar o mundo – é uma palavra de empréstimo do alemão e está estreitamente associada ao sistema germânico de aprendizagem. Journeyman, como eles eram chamados, adquiriam formações de mestre e, em seguida, passavam tipicamente três anos vagando pela terra, aprendendo o ofício de outros mestres, em busca de criar sua própria obra-prima. Seria a missão de James e outros nômades procurar propósito principal de aeroporto para o aeroporto? Talvez não, mas parte da jornada do nômade digital (ou nômade moderno) é, certamente, ser um auto-didata.

Uma jovem em seus vinte e tantos anos, membro da tripulação em uma escuna de luxo, me diz: “Eu tenho toneladas de aprendizado diariamente desde que eu saí (da universidade). Eu morava em Tortola nas Ilhas Virgens Britânicas, depois segui de Martha Vineyard, Vermont, Estado de Washington, e agora Providence”. Ainda que viajar fosse uma parte essencial da sua carreira, eu perguntei por que ela sente a necessidade de andar por aí – é apenas por causa do trabalho? “Eu me sinto como Goldilocks (um conto de fadas inglês) mas continuo me movendo, querendo aprender sobre o país e também encontrar um lugar para fazer o meu próprio lar. Eu acho que o básico estará em casa por um tempo, mas eu não sei o que faria da vida se não pudesse me locomover com tanta frequência”, diz ela.

Bob Romano, um orador principal da Ignite Phoenix, uma espécie de local onde as pessoas trocam experiências, explica que todos que possuem vontade de viajar tem pelo menos um pouco de três características: um senso de aventura, dinheiro e bons amigos. Enquanto o dinheiro e os contatos são apenas requisitos, ele também sugere que perceber que sua vida não é o que você gostaria que fosse é um aspecto importante do nômade moderno – e lá vem a inteligência.

Em 2015 o desejo de viajar não é apenas para os aprendizes ou indivíduos que desejam compartilhar essa felicidade: está se tornando uma marca. Na contramão dessa divulgação excessiva, as literaturas de viagens tecem constantemente os caminhos para o sentido raiz através de alguns clássicos – O Alquimista, Wild, e, claro, On the Road. Representação perfeitamente que vai contra a de Elizabeth Gilbert ao escrever “Comer, Rezar e Amar”, glorificado uma forma cult de andar da Itália para a Índia e à Indonésia.

Mas ao falar de nômades digitais eu não posso deixar de citar um dos grandes clássicos, que ainda influencia muitas pessoas a se libertarem do padrão cotidiano para viver uma vida em movimento: Trabalhe 4 Horas Por Semana, de Tim Ferriss. O livro, em si tem uma chamada apelativa em seu título, porém seu conteúdo é muito explicativo, ajudando com riqueza de detalhes a abrir a mente de muitos indivíduos que se consideram limitados para tentar algo que consideram impossível, como trabalhar e viajar ao mesmo tempo, por exemplo.

Locomover-se é uma parte esperada da vida moderna, um marcador de estado – milhas de passagens aéreas frequentemente se tornam mais comuns por uma razão, e inúmeras contas no Instagram dedicadas a viagens tem mais 35.000 seguidores porque eles vendem uma visão desejável do mundo. Wanderlust – um festival de folk-yoga criado em 2009 – foi cooptado o nome, mesmo apesar do fato de que a ioga é baseada na crença na quietude. “A pedra que rola não cria limo” e “nem todos que vagam estão perdidos”, dizem as tatuagens da moda do Pinterest. A necessidade de se mover pode ser tanto de uma compulsão natural como um mandato cultural.

Um jovem piloto conhecido me disse por que ele escolheu uma vida tão diferenciada do que é dito como comum. “Há causas difíceis como a deslocalização de trabalho e colegas de quarto. Então nós temos as razões interiores, como a realização pessoal através da incerteza e da emoção de uma novo caminho desconhecido. Só tem que se manter longe do que é confortável”, explica.

Mesmo que os movimentos se limitem a cidade-subúrbio ou país-cidade, vagar por aí tem a sua maneira de seduzir não só o mais ousado de nós, mas o mais curioso. Mentes inquietas anseiam por fuga. “Viajar é uma forma de melhorar a perspectiva de vida e a combater a ansiedade, embora eu não imagino que essa lições possam valer para todo mundo”, diz James. “É muito difícil parar depois que você ganha impulso.”

 

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